Fosfogesso na agricultura: o mesmo material pode produzir respostas diferentes
Um material rico em cálcio e enxofre pode melhorar a nutrição e, ainda assim, não aumentar a produtividade. A resposta depende da limitação que existe no solo e de quanto o insumo consegue modificá-la.
O fosfogesso oferece um exemplo particularmente útil. Gerado na produção de ácido fosfórico, é composto predominantemente por sulfato de cálcio di-hidratado, CaSO₄·2H₂O. Seu potencial agrícola precisa ser avaliado em conjunto com a composição do lote e o comportamento dos elementos presentes no sistema solo–água–planta. [1,2]
Dois solos, uma comparação esclarecedora
Balla Kovács e colaboradores avaliaram trigo em vasos durante dois anos, comparando um Arenosol ácido e deficiente em enxofre com um Solonetz afetado por sódio. Os tratamentos incluíram controle e doses equivalentes a 2 e 10 t ha⁻¹. No Solonetz, os aumentos de rendimento foram de 31–40% no primeiro ano e 48–73% no segundo; no Arenosol, não houve resposta significativa de rendimento. [1]

Intervalos de aumento do rendimento no experimento em vasos, em relação ao controle de cada ano. Não representam expectativa de ganho em campo.
O resultado separa absorção e produção. O fosfogesso atuou como fonte de enxofre e aumentou sua concentração na palha no segundo ano, mas essa mudança não se traduziu em mais grãos no solo arenoso. Já no solo afetado por sódio, a menor dose ofereceu benefício agronômico suficiente no conjunto estudado. Aumentar a quantidade de material não trouxe um ganho produtivo proporcional. [1]
O cálcio precisa encontrar um mecanismo útil
Em solos sódicos, o cálcio pode substituir parte do sódio adsorvido nos sítios de troca. Para que o sódio deslocado deixe a zona de interesse, é necessário fluxo de água e uma condição de drenagem compatível. Aplicação do material, troca de cátions e transporte de sais são processos conectados. Considerar apenas o teor de cálcio do produto deixa de fora uma parte decisiva da recuperação. [2]

Esquema de mecanismo, sem escala ou previsão de eficiência. O sódio transferido à solução precisa ser transportado com a água.
Em experimento de lixiviação com solos afetados por sais, Outbakat e colaboradores observaram deslocamento de sais e nutrientes após a aplicação de fosfogesso. A mobilidade dos elementos-traço também dependeu das condições químicas do ensaio. Essa evidência reforça uma exigência prática: acompanhar a água que sai do perfil, além do solo que permanece. Doses usadas para recuperação experimental não devem ser transferidas para uma lavoura sem diagnóstico. [2]
Que informação muda a decisão de uso?
Objeto da avaliação | Informação necessária | Decisão que orienta |
|---|---|---|
Lote do material | Origem, composição, variabilidade e contaminantes | Se o material pode entrar no ensaio. |
Solo | Sodicidade, salinidade, textura, nutrientes e profundidade | Qual limitação se pretende corrigir. |
Água e drenagem | Qualidade da água, infiltração e destino do drenado | Se há condições para remover os sais deslocados. |
Dose e tempo | Curva de resposta e efeito residual | Qual quantidade produz benefício agronômico. |
Planta e ambiente | Nutrição, rendimento, elementos-traço e lixiviação | Se benefício e risco permanecem aceitáveis. |
Essa tabela expressa uma recomendação de avaliação, não uma dose de aplicação. Para um produtor irrigante, a questão inicial é identificar se o problema predominante é sódio, salinidade, deficiência nutricional, impedimento físico ou uma combinação. Solos com limitações diferentes podem receber o mesmo material e responder de maneiras distintas.
Segurança química e radiológica exigem verificações próprias
No estudo com trigo, as aplicações não aumentaram o acúmulo de Al, Cd, Cr ou Sr nos grãos durante o período avaliado. A conclusão se restringe aos elementos, tratamentos e dois anos de observação. Não comprova ausência de acúmulo futuro, nem substitui a avaliação da água e de outros componentes do lote. Os resultados de composição dos grãos também não demonstram conformidade radiológica do material, que depende de análises específicas. [1,3]
No Brasil, a Resolução CNEN nº 179/2014 estabelece 1.000 Bq kg⁻¹ como nível de dispensa para a concentração de atividade de Ra-226 ou Ra-228, para cada radionuclídeo, no uso de fosfogesso na agricultura ou na indústria cimenteira. O ato permanece listado no catálogo de normas da ANSN consultado em setembro de 2026. Esse critério radiológico não equivale a aprovação agronômica ou ao atendimento de todos os requisitos aplicáveis ao produto. [3,4]

Os três conjuntos precisam ser relacionados ao mesmo lote e à área de aplicação. Nenhum deles, isoladamente, encerra a avaliação.
Circularidade começa pelo solo que receberá o material
Para áreas irrigadas do Vale do São Francisco, o estudo oferece uma hipótese de trabalho, não uma recomendação pronta. Ensaios locais devem comparar controle, doses e um material de referência, registrando solo, água, drenagem, tecido vegetal e colheita. O histórico do lote e das aplicações precisa acompanhar as medições para permitir interpretar efeitos residuais.
A oportunidade da bioeconomia circular está em vincular uma corrente mineral a uma função agronômica comprovada. Isso exige demonstrar benefício no solo-alvo, escolher a dose pela resposta e verificar o que permanece ou se desloca no ambiente. O laudo do material é o começo dessa avaliação; o desempenho ao longo do tempo é o que sustenta seu uso.
Referências
Leituras relacionadas
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